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RUMO
À V FESTA BORTOLINI
Um
pai de família com cinco filhos, já bem crescidos, com idades
entre dez e vinte anos costumava, depois do jantar, conversar
com eles. Enquanto isso a mãe cuidava da louça e ficava atenta
a tudo o que era dialogado, fazendo breves intervenções sempre
que convinha ou se tratava de assunto que o marido não dominasse
tão bem. Os filhos maiores ficavam um tanto distraídos e os
menores só pensavam em dormir. As duas moças imaginavam os
novos lances e as cenas da novela da TV que já estava em andamento.
Na
noite de 20 de dezembro de l986 como era sábado, vésperas
de Natal e final de ano, o pai quis ter uma conversa mais
séria, pois sentia-se cansado pelos quase trinta e dois anos
de trabalho em sua profissão de administrador de uma empresa
da qual era sócio-fundador. A tranqüilidade do lar e o clima
familiar, próprio do momento, sugere-lhe algo que pensara
muitas vezes. Que será dos nossos filhos? Que vida serão capazes
de conduzir? Será que fizemos o que deveríamos fazer para
apontar os bons caminhos? Conseguirão ser felizes, tanto quanto
somos felizes com os filhos que temos? Estas e outras perguntas
passavam em sua mente e, num ato de zelo paternal, fala com
voz meio embargada pela emoção.

Foto
ilustrativa da região de Garibaldi-RS
Meus
filhos, sabem o que é a vida na família e na sociedade? Não
aguarda resposta pois percebe que agora todos estão atentos.
Muitas vezes a mãe e eu nos interrogamos a respeito do futuro
de cada um e nos esmeramos em educá-los para o que consideramos
melhor. Ao nosso redor há outras famílias, algumas são de
parentes próximos; outras são apenas vizinhas e algumas um
tanto estranhas e com costumes bem diferentes dos nossos.
Pois, agora entendo melhor a vida de uma família como sendo
algo parecido com a natureza. Nela há animais e vegetais em
muitas variedades. Vejam o que acontece no nosso quintal.
Temos flores, hortaliças, árvores de sombra e algumas frutíferas
que nos dão seus frutos a cada ano e na estação própria. Entre
as árvores temos o cinamomo que não dá frutos comestíveis;
apenas flores muito perfumadas e sombra. Ocorre que as sementes
caem e de muitas delas nascem plantinhas que bem cuidadas
darão belos cinamomos e sempre cinamomos.
A
vida de uma família é parecida em muitos elementos. Os filhos
nascem, crescem e vão constituir nova família, quais árvores
que perpetuam a espécie. Os destinos são diversos, enquanto
o tronco das árvores maduras servem para fabricar móveis;
os pais se perpetuam nos filhos, pois eles mesmos voltam "ao
pó donde foram tirados". Nos anos de crescimento e formação
a mãe de vocês e eu, além de dar bons exemplos, ensinamos
e apontamos caminhos. São filhos saudáveis, graças ao bom
Deus, e bem amados por nós. O futuro estará nas mãos de cada
um e, será feliz aquele que souber construir sua vida com
base no que vivenciou e aprendeu desde criança. Seria muito
triste ver algum de nossos filhos abandonar os ensinamentos
familiares, quais árvores tortas e cheias de nós, não terão
paz e a felicidade será apenas um pesadelo. Árvores crescidas
com belos troncos vão dar madeiras bem classificadas, resultando
em móveis apreciados pela sua beleza e estilo utilitário.
Bons filhos são a alegria dos pais que no entardecer da vida
olham para eles com orgulho em fecunda sucessão; guardam sua
memória e valorizam o que é maior do que o nome herdado: a
sabedoria dos ancestrais. Foi assim que nós, como pais, construímos
nossa família e vivemos enfrentando dificuldades e realizamos
grande parte do que sonhamos, quando jovens.
Nesta
noite não houve perguntas, apenas um silêncio que não era
de sonolência mas de reflexão. As filhas olham para a mãe
que neste momento suspende as tarefas e, emocionada, acaricia
com o olhar a cada um dos filhos fixando-se no pai num abraço
de esperança e amor.
Ir.
Armando L. Bortolini
artolini@pucrs.br
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